A artrose também corre!

Fisioterapia | 3 de Ago de 2017 18:01

A artrose também corre!

Vivemos numa Era de mudança de paradigma na saúde e parte dessa mudança passa por olharmos a pessoa como um ser funcional, dotada de uma capacidade de movimento. Habitualmente movemo-nos por duas razões básicas: por prazer ou para cumprir um determinado objectivo, sendo que em nenhuma das situações, pensamos nesse movimento. Por outras palavras, se eu tiver sede, alcanço um copo, encho-o de água e levo-o até à boca, já imaginando a sensação da água a matar a sede. Contudo, em nenhum momento, pensamos que existe um ombro ou um braço ou uma mão que irão desencadear uma tarefa. Portanto, o movimento acontece e ponto final. 

Quando sentimos dor, o movimento fica condicionado, pois antes mesmo de iniciarmos a tarefa, o nosso cérebro pensa "será que vai doer?" ou "se calhar, é melhor não me mexer..." e nesse momento, todo o processo natural da funcionalidade humana, fica alterado, pois a dor tomou as rédeas do próprio pensamento e, consequentemente, do comportamento.

Enquanto Fisioterapeuta, preocupo-me com a pessoa, mais do que com o segmento estrutural e, por conseguinte, preocupo-me com a forma como poderei guiar o processo de devolver a confiança para o movimento, mais do que em "curar" de forma mais ou menos milagrosa, qualquer diagnóstico estrutural inalterável. É aqui que surge parte do problema, na Saúde. Existe uma tendência de querer saber que diagnóstico estará por detrás das dores sentidas (porque no pensamento comum, cada dor tem a sua lesão associada). Existe uma necessidade egocênctrica de ser o senhor do diagnóstico e normalmente é aqui que o "caldo se entorna". 

Erradamente, os sintomas são sempre associados aos achados imagiológicos do Rx ou da Ressonância Magnética, mas na verdade não o poderemos afirmar, pois há muito que tais alterações estruturais poderão existir, sem que exisistissem quaisquer sintomas. Por exemplo, uma pessoa com dores no joelho e que realize um Rx aos 75 anos, sendo dada a notícia de que tem uma gonartrose (osteoartrose no joelho) ficará a saber o que já era obvio que existisse (uma vez que o processo de osteoartrose é progressivo e, diga-se de passagem, NATURAL no ser humano) e ao questionar que soluções existem, as respostas irão vaguear entre 1. terá que (con)viver com esse problema para o resto da vida; 2. Terá que fazer uma cirurgia e colocar de imediato uma prótese; 3. Pode tentar Fisioterapia, ou quaisquer outras terapias que considere convidativas. Ou seja, foi dado um diagnóstico de um problema "inalterável", foi dado um rótulo e este funcionará mais ou menos como colocar um "menino nos braços", sem que se saiba o que fazer. 

Mas como disse anteriormente, mais do que observar joelhos ou costas, gosto de observar pessoas e procurar compreender qual a melhor forma de devolver a confiança para o movimento, em cada caso. Escrevo "observar", porque é de facto o mais importante, pois para umas pessoas, o exame complementar de diagnóstico poderá ser tranquilizante ("agora já sei o que tenho e posso ficar descansado"), mas para a maioria tem o efeito contrário ("agora já sei o que tenho e não há solução"), desencadeando-se todo um ciclo de preocupaçõespensamentos destrutivos e em cascata quanto ao impacto no trabalho e na vida em geral, medo do movimento, perda de prazer e satisfação associada à actividade. 

Resumindo, existem dois desafios a vencer: o excesso de exames de diagnóstico fornece "rótulos" que se "colam como lapas" à forma como as pessoas pensam e se comportam perante o movimento (restringindo-o) e promovem a crença de que as queixas sentidas advêm obrigatoriamente das alterações encontradas nos exames. Do ponto de vista da compreensão dos fenómenos associados à dor, nenhum dos cenários faz sentido, pois milhões de pessoas sofrem de dores sem que existam alterações significativas nos exames (situações de dor crónica) e milhões de pessoas apresentam alterações degenerativas nos joelhos, no Rx, sem apresentarem quaisquer sintomas associados (i.e. foto: Harriette Thompson, a correr uma maratona aos 92 anos). Ainda, o foco no "rótulo" inalterável impede que a natureza do movimento humano se imponha, pois se existe um certo "mal" e se não existe "cura", o único caminho será ter dor e sofrer.  

mudança de paradigma passa por adquirir hábitos saudáveis (alimentares, sono, controlo de stresse, pessoas e contextos, etc) e explorar todas as formas de movimento com cada pessoa, independentemente do diagnóstico (mais ou menos alterável). O excesso de prescrição de exames imagiológicos poderá estar a condicionar o cérebro humano na forma como encara o processo de envelhecimentonaturalbonito e parte integrante da vida. O elixir da juventude não será, por ventura, o desejo de nunca envelhecer, mas antes, a habilidade de investir num sistema músculo-esquelético que permita a função, que se ajuste às adaptações dos anos que passam, que se expõe ao movimento de forma saudável e harmoniosa. 

Numa grande maioria dos casos, o problema não está em sabermos o "estado" dos nossos ossos ou articulações (através do Rx), mas na associação que se estabelece entre a imagem e o quadro clínico. Mais importante do que a fixação pelo diagnóstico imagiológico, é a integração de uma vida activa, dinâmica e auto-sustentada.

A dor surge por um conjunto de mecanismos de protecção do sistema nervoso, associada à inflamação, ao espasmo muscular protectivo, à alteração do padrão de recrutamento motor. Neste sentido, se dominarmos os sistemas de protecção, as reacções fisiológicas de defesa irão diminuir e estaremos a controlar a dor, mesmo que o bendito do Rx ainda releve alterações. Gosto de pensar nestas alterações como troféus de uma vida em movimento!   


- Tiago Freitas - 
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