A Dor, o Movimento e a ligação com o 'belo'

Fisioterapia | 2 de Abr de 2019 12:42

A Dor, o Movimento e a ligação com o 'belo'

A dor é o principal sintoma referido pelas pessoas que procuram cuidados de saúde, sendo fundamental a sua compreensão. De um paradigma em Saúde baseado na lesão da estrutura anatómica, evoluímos para uma abordagem centrada nas Neurociências, onde o alvo terapêutico passa muits vezes pela modulação da expressão neuro-imunológica de proteínas anti e especialmente pró-inflamatórias, estas últimas associadas à manutenção de inflamação, dor e quadros de disfunção persistentes, com ou sem diagnóstico lesional associado.

Contudo, uma nova etapa se impõe na Saúde, onde a Pessoa deve estar no centro do processo de intervenção, seja ao nível do tratamento, prevenção ou promoção, sendo contempladas as diferentes dimensões que influenciam a vida humana. Por outras palavras, o conceito de Saúde deve aproximar-se do conceito de vida e é onde tudo se torna complexo, mas incrivelmente mais interessante. Integrando os conhecimentos científicos até ao momento, é possível dar o salto desde a ‘simples’ sinapse, até ao comportamento humano, no seu manifesto interacional com o meio circundante, com as pessoas, com a genética, com a memórias e experiências vividas, com as cognições e crenças, com as emoções, com as atitudes, com o sentido da própria vida.

Neste cenário, a dor passa a ser tida como uma experiência e não um sintoma, onde uma multiplicidade de factores fazem parte da equação. Quanto melhor compreendermos esses factores, melhor poderemos influenciar a modificação de quadros clínicos dolorosos. É fundamental evoluirmos para um ponto de convergência na Pessoa, enquanto elemento essencial do processo terapêutico, compreendendo o quadro de referências próprio e ajustando o necessário para o sucesso da intervenção, desde as estratégias de comunicação utilizadas, até à forma como facilitamos o processo de auto-responsabilização e auto-gestão da saúde e da vida. Num paralelismo para as neurociências, todas as dimensões da vida humana influenciam o processamento do sistema nervoso, promovendo uma neurofisiologia bem-adaptada, em contínua homeostasia ou, por outro lado, uma neurofisiologia mal-adaptada, em progressiva desomeostasia.

Quanto melhor soubermos influenciar estas variadas e amplas dimensões, melhor poderemos influenciar milhões de sinapses e melhor poderemos facilitar o processo de intervenção terapêutica, onde a Pessoa assume um papel responsável e ativo, face aos desafios físicos, sociais e emocionais. Neste Paradigma, o despertar da consciência é fundamental, como um processo capaz de desligar do modo piloto automático, focando a atenção no presente, no movimento, no corpo, nas sensações que dele surgem. Neste foco, surge uma consciência representativa de um caminho de autodescoberta e desenvolvimento pessoal, capaz de integrar de novo um corpo, muitas vezes esquecido ou negligenciado e todas as sensações mais ou menos prazerosas inerentes ao estar vivo. Mas o caminho não termina aqui.

Nesta caminhada de “ligar” a consciência, dá-se um processo, que embora profundo, não se aproxima do natural, pois por si só representa um esforço, uma tentativa, onde existe um “certo” e um “errado”, onde o novo caminho será melhor que o anterior, em círculo vicioso com a dor a dominar a existência. O solto e o natural não passam por se tentar, mas antes por “deixar que aconteça”, como quando temos sede e agarramos num copo, enchemos com água e bebemos, sem racionalização associada ao movimento, ao ombro, cotovelo ou mão. Poderemos, eventualmente, ter acesso a sensações ou emoções associadas ao beber água, como saciedade, satisfação, preenchimento, frescura, bem-estar, prazer, mas também essas, em contexto natural, surgem espontaneamente, sem que andemos a procurá-las com um foco atencional interno. Por isso, o caminho não termina aqui.

Depois de treinar a mente para o estado de consciência ‘consciente’, propositado, é fundamental expormos a experiência humana ao foco de atenção externa, onde introduzimos elementos de distração no movimento, para criar automatização, o dito piloto automático, mas desta vez, sem dor associada, se possível. Nestas transposições de etapa em etapa, damos oportunidade à pessoa de se expor com calma a experiências onde a dor deixe de ser o centro e ocorre toda uma mudança de comportamento com um foco no potencial funcional da pessoa, sem “luta” para acabar com a dor.

Costumo dar um exemplo: se estamos numa sala escura e não gostamos da escuridão, tentarmos por força acabar com o escuro será uma perda de energia, ao invés de canalizar todas as nossas atitudes e comportamentos para que se acenda a luz. É claro que a escuridão irá cessar de imediato. Neste sentido, a mudança comportamental ocorre canalizando o foco de atenção para a funcionalidade, para o movimento, sendo seguro integrar a tomada de consciência desse mesmo movimento, dessas mesmas sensações, dessa “mais vida que de novo começa a surgir”.

Nos últimos anos, adaptei também a forma como explico e o que explico às pessoas acerca do seu problema e cada vez mais acredito na facilitação de mudança de comportamento, mais do que na orientação/ educação na mudança de atitude. Por outras palavras, qualquer explicação dada à pessoa, para que esta compreenda a causa do seu “problema”, seja baseado na estrutura anatómica músculo-esquelética ou na estrutura sistema nervoso, não deixa de ser, antes de tudo, baseada na crença do profissional em relação aquilo que estará por detrás do quadro clínico e ainda, baseada no conjunto de técnicas que momentos a seguir iremos propor à pessoa. Este processo educacional será sempre limitado ao nosso conhecimento, às nossas crenças, podendo ser um processo perverso de educação. O mais provável será contribuirmos para um aprisionamento da pessoa, pois associado a uma explicação, surgem restrições funcionais. Quando baseamos a intervenção num modelo comportamental, funcional, somos meros facilitadores do processo, pois quem terá de tomar as rédeas, com muito ou pouco conhecimento de causa (mais ou menos real), será a própria pessoa.

É fundamental refletirmos acerca na nossa zona de segurança enquanto profissionais de saúde, questionando as explicações baseadas em causas estruturais ou explicações baseadas em respostas neuro-imunológicas. Por mais que possam estar presentes, tais alterações anatómicas e por mais que se conheçam algumas respostas neuro-imunológicas associadas à dor e à inflamação, não temos que as vender às pessoas, porque estaremos a deseducá-las mais depressa do que as estaremos a educar. São cada vez menos as explicações que forneço, especialmente em condições associadas à dor persistente. Mas como dizia, a caminhada ainda não terminou.

Há ainda um passo difícil, no entanto, maravilhosamente rico, que é o retorno ao movimento, à vida, sem tentativa de criar cenários, contextos ou focos ideais, apenas “deixar que tudo aconteça”. É certo que assim que se cultiva o foco e a consciência, a mente fica em alerta, mas este último passo a que me refiro é a manutenção do estado de alerta, sem, contudo, racionalizar o momento ou evento, sem pensamento em simultâneo.

É a ligação com o belo, com o divino, é deixar fluir. Este estado é um mergulho completo na experiência, na existência, com consciência, sem mente que pensa, que analisa, que busca. Neste preciso momento, algo acontece no corpo, no Ser, de forma não-dual. Um conjunto de manifestações, por vezes, muito subtis surgem – uma expressão de sorrir, um arrepio, um emocionar com os olhos húmidos, um sentir expandir de contentamento. Ao sair deste estado, podemos olhar para o instante que passou e pensar no assunto, reviver, contudo, se o estamos a fazer, é porque aconteceu.

Há algo de poderoso em todo este processo, que se prende com o facto de que embora tenhamos feito parte do caminho, enquanto profissionais de saúde, não é possível aceder-se a este estado, a este mergulho na experiência (de movimento) por intermédio de abordagens centradas na técnica, na estrutura ou sequer no profissional de saúde.

Esta mudança comportamental, esta transformação, este fundir com a vida apenas acontece pela mão da própria pessoa. Este é o processo centrado na pessoa!  

- tiago freitas -

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