Dor nos 'fios eléctricos'

Fisioterapia | 22 de Mai de 2017 16:22

Dor nos 'fios eléctricos'

Gosto de usar metáforas para ajudar as pessoas a compreender o seu problema clínico e quando penso na Dor Crónica, raciocino com uma base neurofisiológica, neuro-imunológica, cognitivo-comportamental, nutricional, emocional e até espiritual. Somos um ser feito de muitos seres e a interpretação clínica da pessoa reduzida à análise das suas estruturas anatómicas, há muito que conheceu o seu auge. Mas como estava a dizer, gosto de usar uma forma de linguagem que simplifique todo o meu raciocínio, porque obrigatoriamente quero que a pessoa seja o centro do processo clínico. Assim, o primeiro passo, depois de me apresentar e de perguntar a história da pessoa, passa por explicar como cérebro e corpo comunicam entre si.

Pode parecer uma etapa simples, contudo sinto que este é um dos tópicos em que os Fisioterapeutas têm que se tornar mestres. Como tal, apresento à pessoa o paradigma dos "fios eléctricos", como os de uma casa, por onde passa uma "corrente eléctrica" capaz de fazer acender uma lâmpada. Neste momento, peço à pessoa para flectir o cotovelo (exemplo) e explico que o cérebro acabou de dar uma ordem aos músculos flexores do cotovelo, ou seja que enviou uma corrente eléctrica através de certos fios (espinal medula, raízes nervosas e nervos periféricos) até aos músculos. De seguida, toco no dorso da mão na pessoa e pergunto o que sente. Explico que os mesmos "cabos eléctricos" possuem dois sentidos de condução, como uma "auto-estrada" e que agora levaram a corrente em direcção ao cérebro, para que esta fosse interpretada. Se os fios eléctricos estiverem sem qualquer alteração e se a corrente estiver normalizada, movemo-nos e experienciamos sensações sem dificuldade.

Contudo, há alturas em que, por um conjunto mais ou menos complexo de factores, a "corrente eléctrica" fica aumentada e os cabos ficam demasiado "sensíveis". Por outras palavras, a pessoa sente mais dor do que era suposto e esta permanece mais tempo do que era esperado, sem que exista alteração significativa nas estruturas anatómicas do nosso corpo, sem que exista um qualquer "MAL". Até aqui as pessoas vão sorrindo e compreendendo o que lhes explico, mas por esta altura surgem os primeiros franzir de sobrancelhas - "está a dizer que não tenho lesão nenhuma?", pergunta-me a pessoa.     

O tema não é novo, mas vai causando algum desconforto entre profissionais de saúde e doentes. Vivemos num mundo clínico assente num raciocínio estrutural, anatómico que nos diz que se "dói aqui, então tem que existir uma lesão aqui, proporcional à dor sentida". 

Contudo, somam-se os casos em que exame após exame, consultas de especialista em especialista e cirurgias sem indicação, a dor persiste sem que se consiga identificar uma causa anatómica e/ou patológica coerente com as queixas apresentadas. É que em certos casos, assistimos a um verdadeiro fogo-de-artifício no que toca à sintomatologia que a pessoa apresenta. 

É fundamental direccionar o foco da nossa atenção clínica para o papel dos "fios eléctricos" sensíveis (sistema nervoso periférico e central), para o papel da "corrente eléctrica" aumentada (bioquímica), para o papel dos pensamentos, medos, crenças, comportamentos, hábitos de vida, até para o quanto a pessoa é ou não feliz e quanto estes factores, também eles interferem com a corrente eléctrica. É fundamental repensar o peso dos rótulos diagnósticos muitas vezes inalteráveis e ivestir num conhecimento relacionado com fenómenos de sensibilização periférica e central, a influência da microglia e células neuro-imunológicas e fenómenos de neuroplasticidade, procurando uma ligação com as abordagens terapêuticas. Gosto de pensar que muito para além de interferir com a estrutura (que interferimos, de facto), influenciamos a bio-plasticidade neuronal, alteramos a excitabilidade dos receptores, dos axónios, do corno posterior da medula, dos sistemas neurais centrais, do próprio córtex. Gosto de pensar que é desta forma que voltamos a devolver a confiança para o movimento - através de movimento.

Será que é possível viver com um processo de osteo-artrose no joelho sem sentirmos dor? Será possível ter uma hérnia discal L4-L5 sem que haja dor irradiada? Será possível investirmos na funcionalidade, no exercício terapêutico, na educação para o movimento, sem nos focarmos demasiado nos achados imagiológicos inalteráveis e na sua manifestação Egocêntrica? Será que conseguimos diminuir a "corrente" nos "fios eléctricos" e, por sua vez, diminuir a dor? Só porque gosto de metáforas, parece-me bem!


- Tiago Freitas -
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