Facilitar pela mão. Libertar pelo movimento

Fisioterapia | 4 de Ago de 2019 19:39

Facilitar pela mão. Libertar pelo movimento

Viver do passado está ultrapassado! O que significa dizer que os tempos são outros e com a mudança surgem novas perspectivas, novas recomendações em saúde, correndo o risco de anos mais tarde estarmos a voltar ao que tinha sido.

Por outras palavras, assistimos a factos serem transformados em lixo (do ponto de vista científico) e de lixo ser convertido em facto, o que me faz ser cauteloso na forma como exponho verdades absolutas, especialmente no que se refere ao ser humano.

 

As abordagens de Terapia Manual constituíram, em tempos, a base da Fisioterapia, tendo, progressivamente dado lugar a uma intervenção centrada no movimento e na funcionalidade de cada pessoa. Ainda, progressivamente, o Fisioterapeuta, baseado na evidência mais actual, iniciou o processo de abandono do toque, muito por causa da fundamentação e explicações de base das técnicas aplicadas, que se diziam conseguirem alterar estruturas anatómicas e a biomecânica de forma directa, o que na realidade deve ser questionado. Sabemos que poderemos produzir efeitos fisiológicos através de técnicas manuais, os quais não deverão ser menosprezados. Desde a diminuição de mecanismos de sensibilização neural à diminuição da sintomatologia, é possível influenciar a pessoa, permitindo garantir um salto para a funcionalidade e estratégias de coping activas. Pelo meio, existirão mais ou menos efeitos contextuais associados, mais ou menos crenças, mais ou menos expectativas por parte da pessoa em relação ao toque, as quais também não deverão ser menosprezadas.

 

A questão poderá colocar-se de outra forma, atendendo à importância de normalização da resposta ao exercício. É que sendo cada pessoa única, encontrando-se num patamar próprio de literacia em saúde; de consciência corporal, cognitiva e espiritual; de compreensão da importância de assumir o controlo do seu corpo e da sua recuperação; da vontade de se expor ao movimento, ultrapassando o medo, as crenças, integrando as memórias e expectativas, e até atendendo à sua neurofisiologia (muitas vezes nada tolerante ao movimento), ‘Será que é possível aplicar sempre a receita do movimento, numa primeira instância, para o melhor benefício/ resultado?’.

 

O papel do profissional de saúde deverá ser ajustar-se à pessoa, facilitando a confiança para o movimento, ao invés de promover o ajuste da pessoa ao profissional, pelo que a terapia manual encaixa em determinadas fases, com determinadas pessoas, para que eventualmente, alguma mudança comportamental possa ocorrer (levada a cabo pela própria pessoa). Outra coisa são as explicações e estratégias comunicacionais que facultamos (baseadadas tantas vezes nas nossas crenças) e nessas sim, deverá residir o nosso maior cuidado, pois de cada vez que explicados a origem do sintoma com base na alteração estrutural (ex.: a vértebra está rodada e daqui surge a dor), incorremos numa potencial falácia, que apenas aprisiona a pessoa a um raciocínio estrutural, a uma técnica apenas aplicada pelo profissional (o que obrigará a recorrer a este novamente) e a uma lista de movimentos e actividades proibidas. E este cenário simplesmente não faz sentido.

 

Por outro lado, sendo a lista de verdadeiros perigos músculo-esqueléticos realmente reduzida, ultrapassados os critérios de diagnóstico diferencial e identificadas as red flags, o objectivo prende-se com a exposição e foco o mais absoluto possível ao movimento funcional, centrado na pessoa. Contudo, nenhum caminho poderá ser forçado e acredito continuar a existir espaço para a intervenção através da mão, apenas cuidadosa em algumas explicações e fundamentos que já ficaram no passado e que não contribuem para a autonomia em saúde.

Fará, sim, cada vez mais sentido aprofundarmos as competências de avaliação clínica, para melhor identificar a presença de mecanismos nociceptivos, nociplásticos, neuropáticos, psicossociais e motores, enquandrando as melhores intervenções, para cada etapa, para cada pessoa.

 

Acredito numa visão equilibrada, na saúde (e na vida), numa abordagem verdadeiramente centrada na pessoa, atenta ao seu quadro de referência, que concilia a evidência científica com um olhar clínico atento e sensível. 



- Tiago Freitas -

 

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