O Camaleão e o Profissional de Saúde

Fisioterapia | 1 de Jul de 2019 22:34

O Camaleão e o Profissional de Saúde

Gosto de pensar na habilidade de camuflagem do camaleão de forma um pouco diferente. Estamos acostumados a interpretar a camuflagem como uma forma de “fuga aos seus predadores” ou ainda, como forma de “passar despercebido” perante as presas, para depois desferir um qualquer ataque.


Mas como eu dizia, gosto de pensar nesta habilidade de camuflagem numa outra perspectiva, que se prende com a “fusão”, com a “ligação” com algo mais grandioso que o indivíduo isoladamente, que se prende com o integrar o todo e, quem sabe, beneficiar de uma experiência superior.


Vivemos num tempo de grandes mudanças, de necessidade de refundar as estruturas e procurar soluções ditas melhores. A Saúde não escapa a este paradigma e investimos tempo e recursos na facilitação da mudança comportamental de milhões de pessoas, através de melhores hábitos de alimentação, de melhores hábitos de actividade física, de pensamentos mais positivos. Mais ainda, investimos em abordagens que permitam dar a aparência que a mudança está a acontecer, mesmo que a pessoa não tenha de fazer nada para que tal aconteça (ditas abordagens passivas).


Os sistemas de saúde são complexos porque envolvem dois universos grandiosos – o económico e o humano. Neste sentido, assistimos a um sistema baseado na resolução de problemas clínicos/ patológicos, integrando já a tal facilitação de mudanças comportamentais, que não será de desprezar. Mas será que estas abordagens permitem mudanças no Ser? Será que proporcionam os verdadeiros “clicks” no sistema nervoso, na célula, na alma, na essência? Ou será que essas reais mudanças apenas poderão acontecer pela mão própria de cada pessoa, influenciada é certo, pelo meio circundante e pelas ligações (mais ou menos terapêuticas) que se estabelecem?

 

Vejo os profissionais de saúde como facilitadores dessas mudanças, mas vejo-os como camaleões, que ao invés de direcionarem as mudanças comportamentais, deveriam desenvolver skills de fusão com a pessoa que têm diante si, como se se estivessem a camuflar nelas próprias. A interpretação de quem temos diante nós, é fundamental. A leitura do quadro referencial de cada um é o desafio do profissional de saúde contemporâneo, para que se possa atingir algum sucesso mais profundo, sem contudo "rotular" o tipo de personalidade ou de pessoa, porque não nos cabe a nós esse desígnio dos deuses.

Refiro-me a um sistema de saúde centrado na pessoa e profundamente enraizado na consciência terapêutica, na ligação humana.

 

É o clínico que tem de se ajustar, não a pessoa. É o clínico que tem de se camuflar, como um camaleão, fundir, penetrar no todo que é a Pessoa, para que nessa ligação, algo de verdadeiramente transformador possa acontecer no indivíduo. Neste processo, torna-se possível compreender a melhor abordagem para cada indivíduo, desde a aplicação de saco de água quente, que por efeitos físicos ou por conforto e aconchego poderá trazer maior benefício que o mais rebuscado raciocínio clínico fundamentado pela literatura existente. É que a ciência compreende métodos, mas talvez ainda não compreenda a essência humana, caso contrário já teríamos a extinção de tantas condições crónicas, desde a depressão, à dor persistente.


A fusão com a pessoa, numa relação terapêutica que por momentos não distingue árvore e camaleão, pessoa e profissional de saúde, num ambiente de compreensão empática pleno, permite, sem julgamento, ajustar métodos passivos e por ali ficar caso a pessoa não esteja disponível, informada ou preparada para tomar as rédeas da sua recuperação ou vida, ainda. Parte destes métodos passivos passam pela medicação, estratégias de terapia manual usadas por muitos profissionais, electroterapia ou mesmo cirurgias. Numa visão integrada da Pessoa, estas estratégias poderão ser fundamentais quando se demonstrarem as estratégias de eleição para determinada pessoa, em determinada fase. 

Por outro lado, alguém mais informado e orientado para estratégias de coping activas irá beneficiar de uma orientação comportamental perante hábitos ditos mais saudáveis, no entanto, também estes hábitos activos têm uma conotação passiva, porque surgiram da orientação externa de um profissional, de um livro ou meio de comunicação social. Ainda assim, este pode ser o melhor cenário de saúde possível para uma determinada pessoa, numa determinada fase de vida. 


Qualquer forma de estar/ ser é perfeita até surgir outra forma mais perfeita (e assim sucessivamente) e deve ser identificada pelo profissional de saúde, o qual se deverá ajustar, sem impor um "melhor" caminho à pessoa diante de si. Estou convicto de que neste encontro, novas formas de encarar a dor, a patologia, a disfunção surgem, juntamente com novas formas de explorar o movimento e a funcionalidade. Pelo encontro entre profissional e Pessoa, sem ego, abrem-se as portas do caminho terapêutico e talvez, passo a passo, se reabram as portas para a vida.


- tiago freitas -

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